Domo de Araguainha: um marco na história da vida na Terra

O Domo de Araguainha é a maior cratera de impacto de meteorito da América do Sul, com um diâmetro de 40 km. É uma cratera de impacto erodida, ou astroblema, com seu centro localizado entre as cidades de Araguainha e Ponte Branca, ambas no Estado do Mato Grosso. Uma menor porção da cratera (~40%) está sobre o Estado de Goiás, sendo cortada, portanto, pelo Rio Araguaia, que divide os dois Estados.


O impacto do meteorito que formou o Domo de Araguainha aconteceu no período Triássico, 245 Ma., e afetou a seqüência sedimentar da Bacia do Paraná, bem como seu embasamento cristalino. As rochas sedimentares afetadas e deformadas pelo impacto compreendem desde conglomerados Ordovicianos da Formação Alto Garças até siltitos e folhelhos Permianos da Formação Corumbataí.


O Projeto Geoparque do Serviço Geológico do Brasil (CPRM/SGB) objetiva identificar, descrever e publicar propostas de geoparques no Brasil. Sendo assim, e reconhecendo a importância de crateras de meteoritos para educação, geoturismo e pesquisa científica, a CPRM/SBG promoveu este trabalho, com o objetivo de propor a criação do Geoparque Astroblema de Araguainha - Ponte Branca (GO/MT).


Dentre os pontos propostos como "geossítios", vários apresentam micro e macro feições clássicas de deformação por impacto, como os diferentes tipos de brechas de impacto, "shatter cones" e feições de deformação planar. Também foram incluídos os sítios de interesse paleontológico e arqueológico, além dos pontos relacionados à paisagem, com atrativos interessantes ou peculiares, tais como corredeiras ao longo do Rio Araguaia, desenvolvidas em rochas sedimentares deformadas pelo impacto, cachoeiras e cavernas de arenito.

Araguainha possui a maior cratera de impacto da América do Sul e está entre as cinco maiores do mundo, cobrindo uma área de um mil e trezentos quilômetros quadrados. Devido sua importância no estudo das extinções em massa da vida na Terra, foi reconhecido no ano de 2000 como “Sitio Geológico Nacional” pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP).

 

O geólogo Álvaro Crosta, doutor em Geologia pela Unicamp e responsável pelas pesquisas, comenta que o astroblema (problema causado pela queda de um astro) trata-se de uma cratera de 40 km de diâmetro, resultante da colisão de um corpo celeste contra a superfície da Terra, formada próxima ao limite Permiano-Triássico, período em que ocorreu o maior volume de desaparecimento em massa na vida do planeta. Noventa por cento das espécies existentes na época foram eliminadas. O geólogo afirma que toda vez que há um grande extermínio, ocorre um redirecionamento biológico na evolução das espécies. Segundo ele, depois das extinções nesse período, começou uma nova evolução biológica que deu origem aos dinossauros.

 

De acordo com o geólogo Rogério Roque Rubert, acreditava-se que o local era uma formação vulcânica. Mas, a partir da década de 70, verificou-se que as características encontradas no local apontavam para impactos. “Basta olhar as montanhas que formam um círculo em torno do núcleo da cratera. Elas possuem estrias e deformações bastante visíveis a olho nu. É uma formação única. A metros de distância, já se percebem as estrias e deformações”. Afirma ainda que evidências microscópicas foram encontradas em cristais de quartzos, modificações na estrutura que só existem em locais submetidos a altas pressões.

 

A hipótese da queda do meteorito foi baseada no reconhecimento de deformações induzidas pelo impacto em amostras coletadas no centro do Domo (estrutura com forma circular e elíptica), bem como na ocorrência de brechas de impacto ao redor de seu núcleo. Os estudos geológicos do Domo de Araguainha mostram que as ondas de choque provocadas pela queda do meteorito modificaram a estrutura interna de rochas típicas dessa região, como os cristais de quartzo e de granito.

 

Entre outras evidências está o formato circular da estrutura, a semelhança do material encontrado no local com os de outras crateras de impacto conhecidas, incluindo um núcleo central erguido, sucessão de colinas, escarpas e vales disposta de forma anelar e feições de metamorfismo de choque. Álvaro Crosta afirma que “ao passar pela rocha, a onda de choque orienta os grãos desses arenitos em forma cônica, com estrias sempre apontando para uma mesma direção, que é a direção do choque”. Esses resultados reforçaram a origem da estrutura por impacto de um corpo celeste.

 

As marcas deixadas pelo meteorito que devastou a região são percebidas nas pequenas colinas que brotam no meio do cerrado. “Seria o equivalente a milhões de bombas atômicas iguais à de Hiroshima. É uma escala de energia que o ser humano dificilmente consegue imaginar”, afirma Álvaro Crosta. São nesses escombros do passado que os pesquisadores buscam segredos sobre a origem da vida.

 

A descoberta do Domo de Araguainha representa um grande valor científico para o Brasil e para a América do Sul, pelo fato do evento ter acontecido próximo do limite Permiani-Triássico, sendo considerado, portanto, com um marco que permite calcular os intervalos de tempo entre esses eventos de grande extinção da vida na Terra. Apesar das evidências serem facilmente percebidas em materiais recolhidos no local, graças à boa preservação desse astroblema, os pesquisadores ainda não conseguiram comprovar a relação da queda do meteorito com o desaparecimento das espécies.

 

Segundo o geólogo Gercino Domingos da Silva, o sítio geológico atrai especialistas de várias partes do mundo. Cientistas e pesquisadores de vários países exploram o local há muito tempo, mas há pouco que os pesquisadores brasileiros deram conta da importância do evento para a história da vida na Terra. “Vemos o pessoal da Alemanha ou do eixo Rio-São Paulo super interessado no domo, mas não há o mesmo interesse dos geólogos daqui em visitar o local”.

 

Vandete Pereira de Souza, pedagoga e professora de história que mora na região do Domo a mais de 40 anos, comenta que “só agora as pessoas começaram ter informações sobre esse acontecimento tão importante que pode revolucionar a economia da cidade. As pedras eram retiradas do local para serem utilizadas no calçamento de ruas, os cientistas europeus retiravam materiais sem nenhuma dificuldade”. Comenta ainda que por falta de informação, o senhor Erpídio Ribeiro, que era proprietário da fazenda onde foi colocada a placa que demarca o centro da cratera, vendeu “a preço de banana” sua propriedade. “Grande parte do Domo estava dentro de sua propriedade, e ele por não conhecer o potencial do local para o turismo geológico vendeu por um preço irrisório”.

 

A população que habita a região do Domo pouco sabe sobre o evento que proporcionou ao local um potencial enorme para pesquisas científicas, muito menos sabe a razão pela qual esta importante estrutura deve ser preservada. Adelice Pereira, 68 anos, uma das fundadoras da cidade afirma que nos últimos anos muitas pessoas têm aparecido pra visitar a região. “Parece que vem até uns cientistas do estrangeiro. Eu não sei o porquê esse povo sai lá do fim do mundo e vem pra uma cidadezinha igual essa que não tem nada pra oferecer pra eles”.

 

De acordo com o geólogo Gercino da Silva, as pessoas retiram o que querem do local sem controle algum, por isso no início de 2007, as prefeituras de Araguainha, Ponte Branca, Alto Araguaia e o Ibama assinaram um documento propondo a criação de uma área de proteção ambiental no local onde aconteceu o evento, com o objetivo de obter recursos para preservar as estruturas da cratera. Nota-se, portanto, a necessidade de um projeto de conscientização da população sobre o valor do sítio que é reconhecido como patrimônio científico e cultural, bem como para a importância e as formas de preservação.
 
Fonte: isaacfernandes

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